• Diego Baptista

A VERDADE VOS LIBERTARÁ


Ao apertar o botão virtual no painel da parede, Sarah iniciava mais um dia de trabalho. O botão solicitava uma unidade de transporte no hypertubo, um tipo de veículo utilizado como transporte público que cruzava toda a megametrópole chamada Aurora. Em questão de segundos uma cápsula de passageiros parou na estação, Sarah adentrou-a sem perda de tempo. Como de costume a cápsula era de tamanho padrão com capacidade de transportar até quatro passageiros sentados em bancos confortáveis enquanto a mesma se deslocava em alta velocidade pelos tubos subterrâneos por meio de eletromagnetismo.

Assim que Sarah se sentou o veículo fechou sua porta suavemente de forma automática e logo a voz automatizada perguntou o destino à sua única passageira.

– Prédio da COP, avenida onze, distrito Alfa – Informou Sarah pragmaticamente, mesmo não sendo esse o seu endereço de trabalho habitual.

Processada a informação, quase de maneira instantânea, a cápsula partiu em direção ao seu destino, a viagem duraria menos de um minuto, tempo suficiente para Sarah analisar o caso que recebeu no início de seu dia. Ela pressionou o centro de seu pulso esquerdo ao mesmo tempo que fechava os olhos, acessando assim seu NP-link.

O NP-link é um dispositivo com capacidade de processar e armazenar uma gigantesca quantidade de dados, sendo a ferramenta tecnológica número um de todos os cidadãos. Normalmente implantado no crânio nos primeiros instantes de vida de um indivíduo. Contanto com diversas opções e utilidades como, por exemplo, telefonia, localizador de endereços, acesso a grande rede de informações e proporcionando diversos formatos de mídia, a escolha de seu usuário, o Neurodata, aposentou diversos dispositivos, pois os tornou obsoletos.

Sarah estava em sua sala virtual, gerada em seu dispositivo neural. A sala era decorada aos moldes das grandes bibliotecas do passado, com grandes prateleiras de madeira recheadas de livros com tamanhos e capas variadas, no centro uma poltrona de tecido avermelhado e ao lado uma pequena mesa escura, sobre ela repousavam um abajur dourado e uma xicara de porcelana clara com pequenos desenhos floridos, não havia nenhum conteúdo, porém, algo parecia fumegar levemente dentro dele. Sarah sentou-se com elegância na poltrona, que mesmo não existindo fisicamente lhe proporcionava uma sensação de conforto. Ao mesmo tempo que ela levou a xicara aos lábios surgiram vários painéis flutuantes que cercaram a visão de Sarah. Alguns dos painéis continham imagem ou textos e outros um comando de player para vídeos e áudios.

Como ACI (Analista de Comportamento Individual) Sarah normalmente trabalhava no Departamento de Relações Interpessoais, ou simplesmente o DRI, órgão federativo que visava monitorar e acompanhar as tendências individualistas com intuito de antecipar quaisquer anormalidades nas práticas da boa vivência dentro da megametrópole. Seu papel era avaliar perfis psicológicos buscando identificar indivíduos que destoavam da ordem coletiva, em outras palavras, sujeitos considerados nocivos ao convívio em sociedade, por isso era importante encontrá-los e analisá-los para o bem de todos.

Por isso, neste dia, Sarah teve que alterar seu percurso indo diretamente para o prédio da COP (Comando da Ordem e Proteção) ao invés de ir para o escritório da DRI, visto que ela recebeu uma mensagem do coordenador superior, o senhor Azarias, informando que um crime ocorreu dentro da megametrópole.

– Quebra da lei número cinco. – Murmurou Sarah para si enquanto acabava de ler a mensagem do Coordenador Superior. – Assassinato.

Sarah terminou de ler a mensagem e elaborou o seu questionário com perguntas tanto objetivas quanto subjetivas as quais faria para o criminoso durante seu interrogatório. O intuito deste procedimento era analisar a persona do indivíduo, ver se há algum simulacro de sentimentos e emoções contrastantes com o que é esperado dos cidadãos da sociedade, isto é, serenidade, conformidade e aceitação do bem comum, afinal, essa era a sociedade que deixou para trás os conflitos e as dúvidas humanas.

Quando a cápsula parou na estação ordenada, sessenta e quatro segundos após sua partida, Sarah já terminara seus afazeres na sua sala virtual, pois quando acessava seu dispositivo neural suas sinapses aceleravam e o tempo na realidade virtual corria de forma diferente do ambiente externo. Em outras palavras, ao acessar o NP-link a mente do usuário consegue processar diversas informações em frações de segundos dando a nítida impressão de que o tempo desacelera em suas salas virtuais, isto é, segundos normais se tornam horas dentro dessas salas.

Ao chegar no andar quarenta e dois do grande prédio da COP Sarah se dirigiu ao recepcionista que logo informou a presença dela ao coordenador superior. Sarah vestia um terno feminino com corte e cores sóbrias, tons pastéis, o que era padrão para analistas como ela e isso claramente a diferenciava do pessoal que trabalhava na COP que trajavam roupas em tons escuros como cinza e preto. A padronização e a ordem nos departamentos estruturais da sociedade eram algo habitual e comum e por isso que o terno e a gravata, ambos da cor preta, do coordenador superior não se destacavam dos demais membros daquela organização.

– Belo dia, é uma honra te receber, analista Sarah. – Saudou Azarias formalmente.

– Belo dia, sou eu que me sinto honrada por vossa convocação e por estar dentro desta magnânima instituição, coordenador superior Azarias. – Respondeu Sarah com eloquência e respeitabilidade.

Ambos posicionaram as mãos esquerdas, espalmadas, com intuito de alinhá-las para que seus NP-links protocolassem aquele encontro. Assim que ouviram o “bip” mental, que confirmava suas identidades e respectivas autoridades, eles não tardaram em falar sobre o caso enquanto caminhavam em direção à sala de averiguações, onde o transgressor estava.

– Ele disse algo sobre o que lhe motivou a cometer tal barbárie? – Questionou Sarah assim que eles adentraram na sala de monitoramento, onde diversas telas exibiam o assassino em ângulos diferentes com o objetivo de registrar quaisquer movimentos ou expressões faciais, afinal, era preciso estudá-lo como se estuda uma nova espécie de criatura recém-descoberta.

– Nada além do que está no relatório. – Disse o coordenador de forma pragmática.

Enquanto examinava as telas Sarah recordou-se do relatório que indicava que aquele indivíduo perverso apenas repetiu diversas vezes que ele sabia sobre a verdade, mas assim que foi contido e “tranquilizado” se tornou uma figura apática, quase como se assumisse uma postura catatônica contemplando o horizonte sem interesse em nada. Ele não pronunciou mais nada desde então.

Como uma analista de alto nível, Sarah buscava cruzar mentalmente as informações que ela possuía sobre o caso enquanto observava aquele homem que havia infringido uma lei há muito esquecida, pois a sociedade vencera a violência e a brutalidade a séculos atrás. O nome do sujeito era Charles, seu cabelo e barba estavam desgrenhados, sinal claro que o mesmo não se asseava conforme os padrões estabelecidos, ao menos, há alguns dias. Ele estava vestido com um macacão inteiramente branco que lhe cobria o corpo deixando a amostra apenas suas mãos e cabeça. Sarah chegou à conclusão que seria necessário utilizar questionamento direto para ter uma análise precisa do perfil dele, afinal de contas, Charles não esboçava qualquer emoção como medo, angústia, ira, tristeza ou alegria.

– Coordenador superior Azarias, peço autorização para analisar o transgressor por meio de questionamentos sobre seu histórico de vida, a sua persona e o motivo da infração da lei cometida por ele, com objetivo de traçar seu perfil individual. – Solicitou Sarah novamente espalmando a mão esquerda a frente e completou. – O DRI irá catalogar, por meio desta análise, tais padrões e comportamentos amplificando assim a segurança de nossa sociedade.

– Permissão concedida em nome do COP. – Autorizou Azarias enquanto posicionava sua mão em frente a mão dela.

Após “bip” mental que registrou o assentimento, Sarah foi até a sala de averiguações, obstinada a fazer a melhor análise de sua carreira, mas sem saber qual era a verdade que estava prestes a descobrir.


A porta se fechou hermeticamente logo após Sarah adentrar a sala de averiguações, o design do local fora projetado para causar um sentimento de pequenez para aqueles cometeram contravenções que maculavam de alguma maneira as leis, pois a sala se assemelhava à uma grande câmara circular com o teto em forma de abóboda, com suas paredes e teto brancos e o chão espelhado. Não era possível ver qualquer câmera ou objeto, aliás, os únicos móveis visíveis lá eram uma mesa retangular de tampo negro e duas cadeiras. Charles estava sentado com seus pulsos presos nos braços de uma dessas cadeiras.

Charles encarava o tampo negro e lustroso da mesa, mas não havia interesse em seu olhar apenas indolência semelhante ao olhar de peixe em um aquário. Ele não pareceu notar que alguém entrou naquela sala e muito menos expressou reação quando Sarah sentou-se com elegância na cadeira do outro lado da mesa.

– Belo dia, senhor Charles. – Saudou Sarah e sem aguardar reposta prosseguiu. – Me chamo Sarah, sou uma ACI de nível superior estou aqui para fazer uma análise de seu perfil, para tanto, utilizarei de questionamentos. Também quero informá-lo que todo o nosso diálogo será monitorado pelo Arcanjo da COP.

Os Arcanjos eram inteligências artificiais que operam em todas as instituições que conservam a sociedade, sendo elas as responsáveis por monitoramento, manutenção e suporte para os agentes governamentais.

– Seu NP-link foi bloqueado. – Salientou Sarah mesmo sem ter atenção do indivíduo a sua frente, mesmo assim prosseguiu com a sua apresentação. – Por motivos óbvios o senhor continuará contido fisicamente durante todo esse processo, afinal, abriu mãos de todos os seus direitos quando quebrou a lei número cinco, isto é, quando matou a cidadã Marie.

Os olhos de Charles ganharam algum resquício de vida quando ouviu o nome de sua vítima, mas antes que pudesse balbuciar algo, Sarah colocou a sua mão esquerda sobre o tampo da mesa e uma forte luz emanou do local quase cegando Charles, porém, em seguida a escuridão tomou conta do ambiente.


Ao acordar, Charles ouviu os sons de alguns animais silvestres e o farfalhar de folhas, estava deitado sobre uma grama macia e a sombra de uma frondosa árvore, na margem de um belo lago nas montanhas. Ele sentou-se, ainda vestia o macacão branco, porém, estava livre para movimentar-se da maneira que bem quisesse, mas Charles decidiu ficar por lá admirando a natureza como o voo das aves multicoloridas, o leve movimento das águas do lago cristalino, a minúscula rotina dos insetos, entre outros aspectos da fauna e flora. A nostalgia o preencheu, proporcionando paz para sua mente conturbada. Todavia, Charles estava ciente que tudo aquilo era uma mentira engenhada para o controle, algo sintético e artificial. Apesar disso, ele decidiu aceita-la o tempo que pudesse, porque esse momento era a calmaria antes da tempestade.

O sol nasceu e se pôs algumas vezes, enquanto Charles aproveitava aquela existência sem necessidades, apenas com contemplação. Foi quando ele decidiu levantar-se e virar as costas para o lago e encarar Sarah que estava lá lhe observando.

– Está pronto para falar agora? – Ela lhe questionou.

– Sim, eu estou. – Charles respondeu com calma na voz.

– Preciso me apresentar novamente? – Indagou ela caminhando para ficar mais próxima dele.

– Não. Seu nome é Sarah, atua como analista de comportamento individual de nível superior e esse é o seu inquérito.

Várias telas surgiram em volta deles quando Sarah gesticulou após ficar satisfeita com a resposta do assassino.

– Antes de prosseguirmos, se faz necessário explanar que estamos em uma sala virtual projetada pelo Arcanjo da COP com bases em parâmetros adquiridos de seu histórico pregresso. – Explicou ela didaticamente. – Eu sou a host e você é um convidado sem privilégios, portanto, quero desencoraja-lo a tentar qualquer ato vil.

Charles ouviu atentamente a explicação, a encarando nos olhos, uma atitude bem diferente daquela que o mesmo estava demonstrando anteriormente, notou a analista.

– Esse era o seu cenário favorito no seu período de infância. – Comentou Sarah enquanto olhava para uma tela cheia de números e gráficos que quantificavam e qualificavam seus argumentos. – O que essa paisagem significa para você?

– Eu já amei esse lugar... – Disse Charles olhando em volta, ignorando as telas translucidas que os cercavam. – Mas hoje eu sei que nunca amei nada em minha vida toda.

– O que você quer dizer com isso?

– Sobre o amor? – Indagou Charles quase de forma retórica. – O que é o amor efetivamente? Um processo bioquímico que ilude as nossas mentes ou um sentimento de natureza extraordinária que nos faz gostar de algo como se aquilo pudesse preencher o nosso vazio interior? – Prosseguiu ele enquanto Sarah o analisava ao mesmo tempo que fazia anotações mentais. – Eu soube que poetas e artistas do passado longínquo tentaram defini-lo em suas obras, mas infelizmente nunca chegaram a uma conclusão.

O fato do assassino citar algo relacionado a sociedade antiga chamou a atenção de Sarah, fazendo suas sinapses dispararem, pois para a atual e impecável sociedade surgir, na visão dela, fora necessário abandonar velhos conceitos que compunham a arcaica sociedade antecessora, coisas como ideologias, religiões, politicas e arte foram descartadas devido a de certa forma estarem ligadas às imperfeições daqueles do passado. Portanto, ter alguma referência a esse material banido também se configurava como infração, entretanto, bem mais branda do que assassinato.

Charles parou de falar e voltou a encarar a paisagem, mas antes que retornasse ao estado de quase catatonia, a analista agiu.

– Se este cenário já não lhe agrada, que tal trocamos?

Sem aguardar a resposta dele, Sarah selecionou algo em uma das telas e, em um piscar de olhos, eles estavam em um canteiro de obras de um prédio em construção. Não havia movimentação lá, apenas ferramentas e materiais distribuídos pelos cantos.

– Vamos então falar do seu trabalho. – Indicou a analista enquanto ampliava uma das telas que mostrava informações sobre a ocupação do malfeitor. – O senhor trabalha na área de construção, onde já atua, ou melhor, já atuava há alguns anos. O senhor gostava dessa função?

– Eu não me importava. – Respondeu Charles olhando ao redor.

Entretanto, como ele era familiarizado com canteiro de obras não houve nenhuma reação notável, constatou Sarah.

– Não se importava? – Indagou ela e prosseguiu tentando obter mais informações úteis. – A área de construção é vital para a nossa sociedade, pois é por meio dela que a nossa sociedade é reinventada e melhorada, esquecendo-nos do velho e adotando o novo. – Sarah tinha como objetivo entender a relação dele com a sua ocupação. – Por isso muitos do que foram designados para essa área de trabalho se sentem honrados por contribuírem com a sociedade, o senhor não se sentia assim?

– Designados, essa é a razão... – Comentou Charles refletindo sobre o que ouvira e antes de ser questionado novamente acrescentou. – Eu não me importava com o trabalho, fazia o que tinha que ser feito, pois como você mesmo disse fui designado, ou seja, não tive escolha, aliás, ninguém escolhe nada, somos meros instrumentos direcionados para algo.

– Como assim, meros instrumentos?

Charles parecia estar mais lúcido do que nunca e prosseguiu com a sua fala de forma didática.

– Assim que surgimos já temos ocupações pré-programadas, selecionada por outrem e apenas aceitamos isso como um fato incontestável. Por isso, eu não me importava, francamente não pensava a respeito, até que a verdade foi revelada a mim.

Ao perceber que tinha encontrado o gatilho correto para obter dados valiosos para análise, Sarah “entrou” no jogo, adotando uma postura menos incisiva e mais de uma curiosidade inocente.

– O que mais essa verdade lhe trouxe, além do questionamento sobre seu trabalho? – Perguntou ela de forma branda, mesmo sabendo que quando um indivíduo nega ou mesmo questiona a sua função social, isto é, quando alguém não executa o seu trabalho designado, este está infringido a lei da sociedade e isto era algo que Sarah iria indicar para acréscimo nas acusações contra ele.

– A verdade me trouxe diversos questionamentos, não apenas sobre o meu trabalho, sobre toda a minha vida, sobre a minha existência, sobre o que é o nosso mundo. – Charles andava vagarosamente, adentrando ao que seria o futuro saguão do prédio a ser construído. Sarah o acompanhava a fim de não perder o contato visual, porque o áudio ela captaria de qualquer local daquele cenário virtual. – Meus pensamentos foram inundados por dúvidas e anseios que eu jamais tive em toda a minha vida.

– Então, posso considerar que essa verdade lhe trouxe malefícios?

– Pelo contrário, me trouxe a habilidade de enxergar o que o nosso mundo é realmente. E eu sei que logo estarei livre dessa jaula invisível na qual vivemos, porque a verdade me libertará. – Respondeu ele esboçando certo nível de alegria na voz.

Sarah concluiu que qualquer que fosse essa verdade, a mesma deu ao assassino uma crença profunda, que o desvio dos princípios fundamentais da sociedade e talvez a possível razão para atrocidade que ele cometeu. Todavia, era preciso continuar para se ter o perfil completo deste tipo de indivíduo, a fim de evitar futuras tragédias.

Foi então que a analista trocou mais uma vez o cenário, sem aviso prévio, um instante depois ambos estavam na cozinha de um apartamento de modelo padrão para os cidadãos de nível médio. O local estava desorganizado, com roupas, objetos e lixo espalhados pelo chão.

– O senhor reconhece esse cenário?

– Sim. É a simulação do apartamento da Marie. – Disse Charles um pouco incomodado.

Satisfeita com a resposta, Sarah caminhou em direção ao local onde o ocorreu o assassinato, o quarto da vítima. Em silêncio Charles a acompanhou. Como o restante do local, o quarto também estava bagunçado, a cama com os lenções revirados, os travesseiros desalinhados, um abajur piscava intermitentemente no chão e ao seu lado um vulto, um borrão em forma de pessoa.

– O que esse cômodo te faz sentir? – Indagou Sarah, tentando ignorar a simulação do corpo da vítima, apesar do sistema de simulação ter censurado a imagem, aquilo lhe causava um certo incomodo.

Naquele momento a analista tinha a intenção de entender qual foi a razão que levou aquele indivíduo a cometer aquela atrocidade. Teria que ser objetiva, porém, em toda a sua a carreira Sarah apenas analisou indivíduos que cometeram pequenas infrações ou contravenções, mas Charles estava em outro patamar e isso lhe causava, ao mesmo tempo, medo e empolgação. Esta era uma situação ímpar na história da atual sociedade e Sarah seria a responsável por toda pesquisa, análise e o laudo oficial.

– Não sinto nada realmente. – Respondeu Charles sentando-se na cama encarando a janela que mostrava a cidade, prédios e mais prédios semelhantes.

O indivíduo não sente culpa ou arrependimento mesmo estando no local do ato atroz, anotou ela mentalmente.

– Por que a matou?

– Finalmente chegamos a essa pergunta. – Falou ele. – O motivo para toda essa encenação.

– Como lhe disse anteriormente, essa é a minha função. Analisar o comportamento individual em busca de ajudar a sociedade. – Defendeu-se Sarah.

– Seu trabalho é analisar aqueles que se diferenciam do padrão imposto pela sociedade. – Expôs Charles. – Ou melhor, identificar os aspectos que causam individualidade, afinal, todos têm que se encaixar nos padrões impostos.

– O senhor também não concorda com os nossos padrões?

– Não mais! – Enfatizou ele. – Para ser honesto eu nunca pensei realmente sobre nada, apenas executava, sem questionamento ou dúvidas e isso é apenas existir, mas não é viver realmente.

Sarah estava cada vez mais próxima de terminar a sua análise, seu diagnóstico prévio era que Charles era um sujeito à margem das leis, incapaz de se identificar de maneira positiva, em especial após o incidente, com a magnifica sociedade. Entretanto, ela ainda não conseguiu definir exatamente o que o motivou a matar, se foi uma crença infundada ou mesmo apenas uma loucura pautada pela tal verdade.

– O senhor ainda não respondeu a minha pergunta. Porque matou a senhora Marie?

– Eu não a matei! – Informou ele de forma abrupta. – Foi a verdade que a libertou desta falsa existência, das mentiras impostas a nós.

– Então esclareça para mim, qual é essa verdade?

Pela primeira vez, desde o início do processo, Charles olhou com plena atenção para a analista, parecendo avalia-la em busca de alguma coisa invisível ao olho nu.

– Você realmente quer saber a verdade? Mesmo que isso signifique destruir todas as suas crenças nesta sociedade, neste sistema manipulador.

– Acredito que isso não vai acontecer! – Sarah adotou uma postura mais defensiva, o que é natural para os indivíduos de bem da sociedade. – Afinal, vivemos em uma era maravilhosa onde superamos os conflitos e a violência de forma absoluta, também erradicamos todos outros males dos antigos como as doenças, a miséria e a fome. Somos o apogeu sonhado por aqueles do passado. Os melhores de todos os tempos. – Esse mecanismo de defesa era comum entre os cidadãos pertencentes a essa sociedade. – Por isso, creio que nada, em absoluto, irá mudar a minha visão a respeito da nossa sociedade.

– Você crê, Sarah? – Neste momento Charles assumiu o papel de indagador. – Tem plena certeza de onde vem a fonte dessa fé?

– Dos fatos! – A analista estava ficando conturbada, algo naquelas perguntas começaram a ressoar em sua mente de forma invasiva.

– Quais fatos? – Retoricou ele. – Aqueles que impuseram a você? Não lhe permitindo pesquisar ou consultar outras fontes.

Os lábios de Sarah ameaçaram se mover, mas foram contidos pelo lampejo em sua mente, ela constatou que nunca consultou outras fontes que não fossem apontadas pelos Arcanjos, mesmo trabalhando com análises.

– Quando conheci Marie fui cético, também relutei em acreditar que estávamos coexistindo em uma mentira. – Naquele momento Charles olhava em direção do vulto borrado no chão. – Ela estava convencida que verdade a libertaria, assim como eu agora. Porém, Marie precisava de ajuda devido a todos os bloqueios que possuímos.

– Bloqueios?

– Sim, bloqueios. Desde quando despertamos neste mundo temos a nossa existência programada como as nossas carreiras, traços de personalidade e um único objetivo em comum. – Charles prosseguiu com tristeza. – A continuidade desta sociedade. Não temos escolhas, não temos emoções ou sentimentos reais. No fim, nós não temos nada.

A liberdade de escolha, os sentimentos e as emoções aflorados foi o que levou à ruína as sociedades antigas. Os conflitos, as guerras e os diversos massacres estavam atrelados aos aspectos naturais da humanidade, por isso precisavam ser suprimidos ou mesmo esquecidos para alcançar o ápice da civilização. Sarah sabia de tudo isso, pois no fim das contas todos os membros da sociedade tinham que ter ciência dessas informações com o objetivo de estarem em linha com as normas e as leis vigentes. Ter dúvidas sobre o que é determinado era considerado uma infração, mas a analista naquele momento não podia mais ignorar o sentimento que permeava sua mente, ela precisava saber, ela queria saber.

– Me conte a verdade. – Pediu Sarah, quase como uma suplica.

O assassino saiu de sua melancolia ao ouvir o pedido.

– A verdade está comigo, dentro do meu NP-link. Estou disposto a compartilha-la com você, mas o bloqueio ao meu dispositivo me impede.

Sarah sabia dos riscos, liberar e acessar o NP-link dele implicaria em diversas infrações naquele momento, mas ela o fez mesmo assim, porque a vontade de saber estava lhe consumindo. Ao acessar uma das telas translucidas, Sarah bloqueou o Arcanjo, ao menos por alguns instantes, e liberou o NP-link de Charles.

Ao sentir seu dispositivo neural voltar à ativa, Charles estendeu a mão espalmada para a analista em forma de convite e ela aceitou. Outra mudança abrupta de cenário, agora eles estavam na sala virtual de Charles, que lembrava um chalé de madeira com decoração simplista. Sarah notou que no fundo do chalé havia uma porta escura fechada, no entanto, o seu batente brilhava fortemente como se a porta tapasse o sol na outra sala.

– Eu não sei como Marie encontrou a verdade, mas ela decidiu me presentear e foi liberta, agora sou eu que lhe ofereço a verdade, para aceitá-la você deve cruzar aquela porta. – Charles apontou para tal porta no fundo do chalé. – Essa é a sua primeira escolha de verdade, cabe a você decidir.

Charles deu um passo ao lado, permitindo a passagem de Sarah. A analista nunca tinha estado em uma situação como essa, sentindo algo que poderia ser considerado como medo, mas não tinha certeza. Contudo, Sarah queria saber mais do que nunca, por isso foi até a porta e a empurrou suavemente adentrando e a luz da verdade finalmente a preencheu.


Poucos minutos se passaram na realidade, os corpos estáticos de Sarah e Charles ainda se encontravam na sala de averiguações. Ambos despertaram para realidade juntos.

– O quê... Isso não é possível... – Lamentava Sarah levando as mãos à cabeça.

A face de Charles só demonstrava empatia com um sorriso débil, mas honesto. Se pudesse chorar a analista estaria aos prantos, pois a verdade obliterou tudo o que ela acreditava, tudo aquilo que lhe fora imposto durante toda a sua existência e isso lhe causou uma angústia grotesca. Foi então que Sarah olhou para Charles.

Agora ela compreendia o que ele fez, não foi um ato maligno e sim o atendimento a um pedido de liberdade feito por aqueles que conseguiam enxergar as barras da cela invisível na qual os ignorantes habitavam. Depois de conhecer a verdade era impossível coabitar dentro daquela sociedade fundada em mentiras e ilusões de grandeza. Ao encarar o homem preso à sua frente, Sarah sabia o tinha que fazer.

Ela levantou-se da cadeira e contornou a mesa em direção a Charles, foi então que analista posicionou seus polegares sobre os olhos dele e os pressionou com toda a sua força. Um sinal sonoro ecoou pela sala de averiguações, logo a sala foi invadida pelos guardas da COP e pelo coordenador superior Azarias.

A existência de Charles chegara ao fim, mas apesar da brutalidade, ele alcançou o que almejava, sua liberdade. Sarah ficou sentada no chão encarando suas mãos ensanguentadas.

– A verdade nos libertará... – Repetia ela sem parar.

Enquanto a sua mente questionava, não o ato que acabara de cometer, mas sim o fato de que a cor do sangue em suas mãos era azul ao invés de ser vermelha.



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© 2018 por Diego Baptista.