• Diego F Baptista

ENSAIOS NO ÁTIMO



De repente, dor e agonia.

Pulmões vazios, um lampejo de luz.

Silêncio.

E então, a serenidade o preencheu por completo.

Quando o sujeito finalmente abriu os olhos, se viu sentado em banco, igual a de qualquer pracinha. Estava aturdido, olhou para todos os lados. O banco passou a ser o seu lugar, naquele instante do tempo, dentro da conjuntura de copiosos acontecimentos. O assento de madeira ficava localizado no topo de uma colina verdejante, que era cortada por uma estradinha de paralelepípedos amarronzados. Além disso, ao lado, havia dois postes de luz, que lançavam uma luz cálida sobre ele.

Notou que vestia roupas simples, confortáveis ao toque e de cores apagadas. O homem coçou a cabeça, não porque precisava, mas sim como um reflexo antigo para algo que ele já não se lembrava mais.

Aliás, não havia lembrança alguma, apenas vagas sensações.

Isso era estranho. Contudo, o sujeito não se preocupou com isso.

Apenas aguardou, sem saber bem pelo quê.

A noção sobre o tempo era vaga, inexistente, para se dizer a verdade. Por essa razão, ele não saberia estimar quanto tempo ficou sozinho, sentado naquele banco, no topo da colina, antes de ser abordado por outrem.

– Com licença, senhor. Eu posso me sentar? – perguntou uma voz suave e feminina.

O sujeito a fitou, notando que ela estava trajada como uma dama de tempos atrás, com uma casaquinho justo e luvas que cobriam seus antebraços. Uma saia rodada lhe cobria os membros inferiores. Na cabeça, ostentava um belo chapéu enfeitado e, apesar do tempo ameno, ela carregava consigo uma sombrinha delicada, que, de certa forma, combinava com as suas vestes elegantes.

– Claro, fique à vontade – respondeu ele, indo mais para um dos cantos do banco. Ela fechou a sombrinha e se sentou no espaço vago do assento de madeira.

Por mais que o sujeito olhasse diretamente para as feições daquela dama, não conseguia dizer se ela era bonita ou não. No entanto, essa espécie de constatação não parecia ter valor algum em comparação como tivera em outrora.

– É impressionante, não é mesmo?

– O quê? – ele quis saber.

– Ora, essa vista – a dama indicou, tanto com o olhar quanto com um gesto, quase teatral, a paisagem a frente.

Mesmo que aquele sujeito tenha tido passado um certo momento naquele local, ele não tinha olhado para nada que ficasse além do faixo de luz dos postes. Quando finalmente o fez, devido a indicação da mulher recém-chegada, ficou deslumbrado com que viu.

O cosmo brilhava no horizonte. Cada estrela exibindo seu brilho pujante no céu. Além disso, uma aurora boreal exibia diversas cores nos seus fachos, que desenhavam formas sinuosas na abóboda celeste.

– É maravilhoso – constatou ele.

– De fato, é.

Ambos ficaram contemplando aquele esplendor, sem pressa ou preocupações em mente, já que há muito suas mentes estavam, de certa forma, livres desses ônus comuns.

– Isso me faz pensar o quão ínfimos nós somos – expos ela de forma tranquila e sincera.

– Diante do universo?

– Sim, mas não só isso. Eu quero dizer diante de tudo que nos cerca.

– Como assim? – ele quis saber de forma genuína. E a ouviu pacientemente, ponderando sobre cada apontamento dela.

– Passamos boa parte da nossa existência com dúvidas sobre o nosso ser. Afinal, todos querem saber o que são verdadeiramente. E não só no sentindo biológico ou espiritual. Não, queremos nos compreender, entender as nossas motivações e, principalmente, o nosso significado. Quando digo significado, quero dizer em relação a todas as coisas que nos rodeiam, sejam elas visíveis ou não, me entende?

O sujeito absorveu calado aquelas reflexões, tentado dirigi-las da melhor forma o possível. Claro que ele, em algum momento de sua existência mundana, já tinha se perguntado qual era o sentido da vida e qual era o seu valor naquilo tudo. Todavia, até mesmo naquele imensurável instante, aquele homem ainda não possuía uma resposta absoluta.

Parecendo perceber a dúvida e desconforto do seu novo colega, a mulher então optou por encerrar o seu monólogo, tentando evidenciar a sua interpretação a respeito daquele tema:

– A única conclusão que parece ser a mais plausível, a meu ver, é vivenciar o extraordinário, isto é, a vida. Saboreando cada emoção e sentimento, que nos são dados em certos momentos, da melhor forma que pudermos.

– Me desculpe, mas eu tenho que lhe perguntar – interpelou o sujeito. – Por que acha que a vida é extraordinária, sendo ela algo tão comum?

– No meu ponto de vista, a vida está longe de ser algo comum. Não confunda abundância com trivialidade. Veja bem, nascemos sendo frutos de inúmeras possibilidades, em outras palavras, cada individuo já é único, ao menos, perante a natureza. Porém, não sou leviana a ponto de achar que apenas o fato de nascermos, tornaria a vida algo fenomenal. Contudo, essa parte inicial já serve como um indicativo, contundente, da importância de cada um.

– Então, seriam as emoções e os sentimentos, que vivemos ao longo da vida, a outra parte?

– Exato. E ressalto que as emoções e sentimentos compartilhados com outros seres vivos, em diversos momentos da nossa existência, fazem toda a diferença.

– Mas, e aqueles que optam por viverem sozinhos, apáticos perante a tudo e a todos?

– E quem disse que esses indivíduos não estão sentindo nada. Na verdade, acredito que eles optam por abraçar o vazio, ficando em paz consigo mesmo, apreciando a solidão. E isso também faz parte do sentir, do vivenciar e do experimentar. Mas, por fim, independentemente de quais tipos de emoções e sentimentos que as pessoas vivenciem no seu trajeto, essas serão as únicas coisas, que verdadeiramente carregarão para o fim.

Novamente, por puro reflexo inconsciente, o sujeito decidiu fuçar em seus bolsos, em busca de algum objeto em sua posse, mas nada encontrou. Todavia, mais uma vez, isso não o preocupou, tendo em vista que aquele singelo momento estava além das preocupações corriqueiras. A dama notou a ação dele, apenas sorriu como alguém sorri a um recém-chegado bem-vindo.

– Acredito que eu já esteja pronta para a minha próxima viagem – indicou ela.

– Como assim, tão cedo?

– Nem tão cedo e nem tarde demais, apenas vou. Sinto que esse é momento certo, só isso. Vou embarcar no próximo. Agradeço demais por sua companhia.

– Não sei se devia me sentir triste ou alegre com isso? – a dúvida dele era honesta. Pensou um pouco e decidiu. – Bem, escolho me sentir grato. Muito obrigado.

O sujeito pode ver o sorriso caloroso dela antes de um som inexplicável e uma luz cegante chegarem como um raio, vindos por um lado do caminho.

Ele simplesmente fechou os olhos, e logo a paz de anteriormente retornou.

De alguma forma, aquele sujeito sabia que ficaria sentado naquele banco por algum tempo, não sabia se seria pouco ou muito tempo, mas tinha a convicção que seria um tempo para pensar, recordar dos sentimentos e emoções que uma vez sentira e para admirar tudo o que o cercava, tanto no antes, no agora e no depois.

Fim.

Redes sociais:

  • Facebook Social Icon
  • Instagram Social Icon

© 2018 por Diego Baptista.