• Diego F Baptista

LEGADO - O MERCENÁRIO AMALDIÇOADO

Atualizado: 25 de Out de 2018



Atiçando a fogueira utilizando um galho fino, com o intuito de manter o fogo aceso, mas baixo, Logdan pensava no porquê de aceitar esse tipo de trabalho. Atacar um forte improvisado, cheio de bandidos sanguinários em nome de um lordezinho mesquinho que se esconde atrás de uma corte de lambe botas. Mas quando Logdan encarou as suas próprias botas, viu algo surrado e velho com as solas finas devido ao uso contínuo, suspirou lamentosamente, tendo a convicção que aceitava esse tipo de trabalho por necessidade e porque ser mercenário era sua única profissão.

Desde cedo Logdan aprendeu a lutar, seu tutor não poupou esforços para torna-lo um combatente eficiente e astuto. O homem que lhe ensinara a sobreviver e matar durantes as batalhas foi seu tio, irmão mais velho de sua mãe, Alastor. Foram anos difíceis de treinamento, porque o seu tutor nunca fora um homem agradável e que vivia procurando conflitos e batalhas para se alistar no lado que lhe pagasse melhor, afinal, já não tinha mais uma Ordem a qual se dedicar. “Está tudo acabado pirralho, os tempos de glória se foram. Mas temos que continuar, pois nosso oficio é matar, faz parte da nossa profissão de mercenários” era o que ele repetia como um mantra todas as vezes que enchia a cara de cerveja barata após o término de alguma luta. Como aprendiz, Logdan não tinha opção a não seguir seu tutor e tio por todos os cantos do grande continente. Mas agora isso era um passado distante, pensou Logdan enquanto olhava a pequena espiral de fumaça subir ao céu noturno.

Ele ficou de pé para avistar mais uma vez o forte, uma antiga construção que fora construída a séculos atrás, contudo, atualmente era mais um monte de entulhos de blocos e argamassa onde o bando invasor providenciou algumas barracas e uma grande tenda no centro e em volta subiram uma paliçada, porém, muito mal feita assim como o aspecto geral desse forte, demonstrando que os bandidos não tinham nenhum preparo militar.

Logdan escolheu um ponto alto, em uma colina ao norte do forte, camuflado entre as árvores e arbustos para montar seu pequeno acampamento, que serviu para descanso e ponto de observação, tendo em mente que ele precisava conhecer seus inimigos ou, ao menos, saber a quantidade correta deles. O bando contava com dezoito homens armados e algumas mulheres, todos maltrapilhos, no entanto as aparências não faziam jus aos atos malignos deles, tais como saques, sequestros e assassinatos que eles praticavam com os camponeses da região.

Para vencê-los não seria necessário lutar com todo o bando, apenas com a sua liderança. Logdan sabia que o líder estava enfurnado no centro do forte, no grande salão, de onde devia latir suas ordens aos seus seguidores e se aproveitar do melhor das pilhagens.

A noite ficava mais densa enquanto Logdan aguardava o momento ideal para o confronto. Luzes de tochas e archotes iluminavam o forte e as vozes, uma mistura de cantoria ébria e xingamentos, eram carregadas pelo vento demonstrando que os bandidos estavam comemorando algo, talvez uma pilhagem bem-sucedida.

Logdan sorveu um grande gole de água de seu obre de couro escuro, ele não estava temeroso ou preocupado com o que logo iria fazer, pois já se punha em risco em diversas situações, mas o que o incomodava era o chamado sinistro dela.

Normalmente ela ficava em silêncio, mas de algum modo ela notava quando uma luta estava por vir, como se pudesse sentir o cheiro de sangue vibrando levemente na bainha, ansiosa para entrar em ação. Logdan a desembainhou e encarou a lâmina de sua espada amaldiçoada. Uma arma feita no passado com o intuito de matar qualquer criatura, mundana ou mística, pois ela foi encantada com uma técnica criada por um artífice de grande poder. Entretanto, para aproveitar o máximo de seu poder era importante seguir alguns passos, sendo o primeiro deles o pacto entre a arma e o seu portador, sendo que esse pacto era vitalício. O próximo passo era o domínio da arma que envolve muito treino e o último passo era aprender como liberar o espirito da arma, um comando místico que funde a energia da arma com o seu portador, concedendo assim um poder sobre-humano ao seu espadachim. Todavia, esse poder cobrava o seu preço e isso foi a ruína de diversos guerreiros que já portaram armas semelhantes.

Desde quando Logdan fez o pacto com a sua espada, entrou em uma disputa de controle, pois a arma o forçava ao caminho da insanidade e do caos, da matança desenfreada e sem sentido, visto que ela foi forjada para guerra. Por temer perder essa disputa, Logdan, sempre buscava por magos com grandes habilidades e conhecimento arcanos, mas até o momento conseguiu apenas aprender alguns encantamentos que serviam para selar a energia da arma, a deixando adormecida. E foi isso que ele fez, para tanto, utilizou uma pequena runa a qual ele mesmo desenhou entre a guarda e o inicio da lâmina da espada. Assim que terminou o encantamento, o chamado cessou. Logdan guardou a espada na bainha presa ao seu cinto. Ele não gostava de usá-la, ainda mais desperta, uma vez que a influência dela se tornava cada vez mais forte, porém, ela era sua ferramenta, sobre a qual, ele tinha o domínio pleno quando se trata do seu tipo de trabalho.

O som vindo do forte diminuiu, sinal de que muitos de lá pegaram no sono, Logdan apagou a sua pequena fogueira e foi até o seu cavalo que estava pastando próximo dali.


Dois homens guardavam a tosca entrada do forte, uma estreita passagem aberta na paliçada, um deles cochilava de tempos em tempos apoiado em sua alabarda. Já o outro estava sentando em um caixote de madeira descascando uma fruta com uma pequena faca. Ambos ficaram irritados quando foram selecionados pelo líder do bando para ficarem de guarda naquela noite. O que irritava mais era o fato que ninguém das redondezas ousaria atacá-los, afinal, os primeiros bravos a fazerem isso, enviados do nobre da região, foram mortos facilmente e suas cabeças agora eram troféus expostos nas traves mais altas do forte como um sinal de alerta para os próximos heróis. Todavia, nesta noite alguém apareceu na estrada de terra batida, subindo a colina na direção do forte, forçando a vista, o guarda que estava sentado no caixote, viu um viajante solitário cavalgando em direção a entrada do forte.

O guarda se pôs de pé rapidamente largando a fruta e faca e sacando a sua espada enquanto gritava com seu companheiro para acorda-lo. O viajante apeou alguns metros da entrada do forte e caminhou em direção aos guardas guiando seu cavalo pelas rédeas.

– O que quer aqui seu filho de uma cadela? – Vociferou o guarda com a espada em punho dando um passo à frente para parecer mais ameaçador.

O viajante parou e levantou as mãos demonstrando assim que não estava interessado em uma luta. Já os guardas deram uma boa olhada nele, percebendo que abaixo da capa puída de viajem o viajante estava utilizando uma armadura de couro batido com alguns reforços e placas metálicas além de portar ao menos uma espada embainhada presa ao seu cinto.

– Calma amigos, venho apenas atrás de abrigo e algo para forrar o estomago. – Disse o viajante calmamente, não demonstrando que estava intimidado ou mesmo ofendido.

– Amigos porra nenhuma! – Gritou o guarda enquanto se aproximava do viajante. – Você sabe quem somos?

– Ele quer morrer! – Afirmou o outro guarda com sua alabarda em riste.

O semblante do viajante não se alterou, ele ainda mantinha as mãos para o alto.

– Achei que eram os soldados deste forte. – Respondeu o viajante de forma calma.

Os dois guardas trocaram olhares confusos uma vez que nenhum deles pôde distinguir se o viajante estava sendo inocente ou irônico.

– Somos o bando da Rapina Sangrenta e mandamos nessas terras! – Proferiu o guarda com a espada, aproximando a lâmina de forma ameaçadora em direção ao peito do viajante.

– Rapina Sangrenta... – Repetiu o viajante, agora sem conseguir disfarçar o desdém na fala e nem o sorriso irônico. – Tipos como vocês sempre escolhem nomes como esse para os seus bandos. Rapina Sangrenta, é sério? O objetivo é intimidar? Assustar?

Atônitos devido a súbita mudança de comportamento e pelas perguntas do viajante os guardas paralisaram por um instante que foi o suficiente para o viajante agir. Ele saltou em direção ao guarda que o ameaçava com a espada, desviou da lâmina pela direita. Agarrou o pulso do guarda e torceu-o, o movimento foi tão abrupto e forte que o derrubou de costas no chão. Foi fácil desarma-lo depois que seu rosto foi destroçado pelo punho do viajante. O segundo guarda esboçou uma reação, mas tarde demais, antes de atacar ou mesmo gritar, seu peito foi perfurado pela espada de seu companheiro que fora arremessada pelo viajante.

O viajante ficou quieto, com seu joelho pressionando as costelas do guarda caído, atento se a breve luta tinha causado alarde no forte, porém, tudo estava calmo como antes.

O guarda estava tossindo e cuspindo sangue devido ao seu nariz fraturado e os lábios estourados e a pressão em seu peito não estava lhe ajudando. Ele tentou balbuciar algo, mas não conseguiu.

– Me desculpe amigo. – Falou o viajante diminuindo a pressão do joelho. – Não quero que você apague, afinal, preciso de algumas respostas sobre o seu “incrível” bando da Rapina Sangrenta.

O guarda foi forçado a falar tudo sobre seu bando e logo após foi nocauteado por outro golpe na face.

Logdan estava satisfeito ao entrar sorrateiramente pela entrada frontal do forte, pois estava em vantagem em relação ao bando, agora precisava cortar a cabeça da serpente, isto é, derrotar o líder daqueles bandidos.


O forte antigamente ostentava uma grande muralha de rocha e argamassa, mas agora, assim como sua torre de vigília principal, estava em pedaços tornando impossível vigiar por meio das ameias e deixando claro a necessidade da paliçada erguida pelos ocupantes atuais. O pátio também estava descuidado, com ladrilhos soltos e buracos aqui e ali, onde uma quantia considerável de vegetação rasteira crescia.

Logdan passou entre as barracas que estavam distribuídas de forma aleatória pelo pátio, onde homens e algumas mulheres dormiam despreocupadamente após a farra da noite. A fogueira no centro do local estava quase se extinguindo, assim como a atenção de uns poucos beberrões que ainda se mantinham acordados, mas não o suficiente para notar a entrada de um único invasor obstinado. Logdan sabia exatamente onde ir, visto que o líder dos bandidos conhecido como Hogg “O Sarnento” estava dentro do prédio principal do forte, que estava consideravelmente intacto em relação ao restante da instalação.

Logdan abriu a porta de madeira reforçada com chapas metálicas, típica de fortalezas, sem maiores dificuldades, foi preciso apenas um leve empurrão e ao adentrar no salão notou que estava em ambiente decorado com tapeçarias, objetos e móveis claramente frutos de roubos das caravanas de mercadores que viajam pela região. A iluminação do local era proveniente de alguns fogaréus, o que tornava a luz bruxuleante e o ambiente abafado, pois as pequenas frestas verticais que serviam como janelas estavam, em grande parte, bloqueadas por entulhos e pedaços de velhas prateleiras do forte.

No centro do salão encontrava-se um tablado improvisado, sobre ele dois baús e entre eles uma cadeira adornada, digna da nobreza, servindo como um trono. Sentado nela estava Hogg, um homem corpulento e de aspecto agressivo, tanto a sua cabeça raspada quanto o lado direito de seu rosto eram cobertos por um forte eczema avermelhado o que justificava seu apelido de sarnento. Aos seus pés havia duas mulheres e um jovem dormindo seminus entre canecas metálicas e restos de comida.

Hogg se remexeu na cadeira quando viu Logdan entrar no salão.

– Eu sabia que aquele nobre afeminado iria mandar outro chupa sacos para fazer o trabalho sujo, mas devo confessar que eu não esperava que ele mandaria um nômade pé-rapado como você. – Comentou Hogg logo após cuspir em jarro de barro.

Logdan achou engraçado a comparação feita, entre ele e um nômade, entretanto, não discordava, afinal, tanto a sua barba e seu cabelo escuro estavam desgrenhados quanto as suas vestes surradas pelas longas viagens, permitiam essa analogia. Ele pôs a mão esquerda na bainha da sua espada próximo da guarda da mesma, a fim de posicioná-la de maneira a facilitar o saque da arma.

– Tenho a impressão de que a nobreza não quis gastar muito com simples cães sarnentos – Disse Logdan enfatizando a palavra sarnentos. – Acredito que as minhas intenções aqui estão claras, vim para expulsá-los dessas terras de forma definitiva.

– E como você pretende fazer isso? – Indagou Hogg.

– Eu estava torcendo que fosse na base de uma boa conversa entre você e eu.

Hogg gargalhou de forma tão estrondosa que seus amantes adormecidos acordaram assustados e ficaram ainda mais assustados quando avistaram Logdan.

– Você entrou aqui rastejando como uma cobra traiçoeira e agora tenta usar a sua língua bifurcada para me enganar. – Hogg levantou enquanto discursava, o sujeito era imenso constatou Logdan. – Mas saiba que eu não sou a sua presa! Na verdade, você é um pequeno cordeiro que entrou na toca do lobo. Você vai morrer cordeirinho!

– Bem, sempre temos a opção número dois. – Lamentou Logdan ao desembainhar sua espada enquanto Hogg sacava uma machadinha da cintura e chutava uma de suas amantes para que ela saísse do caminho.

A luta iniciou-se com um avanço de Hogg que tentou desferir um golpe brutal em Logdan, visando partir-lhe a cabeça com a sua machadinha, mas Logdan foi ágil como um felino ao se desviar com passo curto para esquerda ao mesmo tempo que deu um golpe horizontal com a sua lâmina cortando o ventre do seu adversário. Hogg urrou de dor, seus olhos lacrimejaram e sua face virou uma máscara de ódio quando novamente tentou aplacar a sua ira com um golpe circular de sua arma. Logdan era um guerreiro experiente, participou de diversos conflitos em sua vida toda, portanto, foi fácil para ele antecipar o que Hogg faria por isso aparou habilmente a machadinha dele com a parte chata da sua espada e depois a empurrou para baixo causando desiquilíbrio no homenzarrão furioso. Hogg deu passos rápidos buscando se manter em pé, todavia, assim que ele se recuperou, logo sentiu a ponta da espada de Logdan trespassar seu peito em uma estocada poderosa.

O líder do bando da Rapina Vermelha ajoelhou, gorgolejando sangue pela boca.

– Não acredito que vou morrer pelas mãos de um nômade...

– Não Sarnento, eu não sou nômade. – Comentou Logdan de forma sincera. – Apenas viajo muito devido a minha profissão de mercenário.

– Mercenário? – Indagou Hogg enquanto tentava em vão estancar o sangue que fluía de seu peito, no mesmo momento em que seus amantes estavam aos prantos.

– Sim, mercenário. Porque infelizmente sei apenas um ofício, matar.

Logdan aproximou-se de Hogg, se posicionando de forma a facilitar um corte limpo, afinal, teria que levar a cabeça daquele bandido para o nobre que encomendou aquele serviço. Ele sabia que devia finalizar aquilo rapidamente, visto que havia uma grande possibilidade de a luta ter chamado atenção e logo um punhado dos bandidos entrariam no salão para saber o que estava ocorrendo.

– Mercenário, você acha que eu vou aceitar a morte tão facilmente? – Perguntou Hogg enquanto largava a machadinha e puxava um pingente de metal escuro, este possuía um formato sinistro onde o metal era retorcido e na parte inferior um cristal de cor arroxeada.

Logdan reconheceu de imediato o tal pingente, era um Aprisionador, uma arma caótica e maligna feita por magos sem escrúpulos, nada de bom viria de lá. Antes que Logdan pudesse fazer algo ou mesmo gritar um aviso desesperado Hogg apertou o pingente fechando sua mão, as pontas do metal perfuraram a sua pele e sangue escorreu do metal para o cristal que em uma reação rápida brilhou e partiu em pedaços minúsculos liberando uma espécie de fumaça roxa, que inicialmente dançou pelo ar, mas logo condensou-se adotando uma forma humanoide, porém, monstruosa.

A criatura possuía uma carapaça escura, semelhante a um crustáceo, com membros inferiores pequenos e fortes assim como seus braços grossos, entretanto, esses eram longos e as mãos terminam em três dedos com garras afiadas. Já a sua face horripilante era composta por dois pequenos olhos do lado esquerdo e um grande olho do lado direito, todos verdes, de aspecto similar a de um inseto e a sua boca era seccionada em quatro partes cheia de presas de onde uma saliva espessa escorria sem sessar.

– Está vendo, seu mercenário de merda, eu tenho meu próprio monstro, eu tenho poder! – Gabou-se Hogg se encostando na perna do monstro recém materializado.

O monstro parecia estar avulso a tudo e a todos dentro do salão. Não era a primeira vez que Logdan se deparava com uma monstruosidade advinda da magia e ele sabia que a criatura ainda estava atordoada devido a sua liberação repentina, logo o caos e a violência se iniciariam.

– Eu lhe ordeno que mate esse filho de uma cadela! Eu lhe ordeno! – Gritava Hogg para o monstro e depois de muito insistir o mesmo saiu de seu estado de confusão e olhou para seu suposto mestre.

Hogg sorria satisfeito, mesmo com a boca cheia de sangue, talvez ele conseguisse sair vivo daquele encontro, dado que a barganha que fizera a meses atrás com um mago obscuro estava sendo aplicada como último recurso em uma luta perdida. Aquele mercenário maldito será trucidado por meu monstro pensava Hogg. Ele continuou sorrindo, mesmo quando teve o crânio perfurado de forma abrupta pelo monstro, abraçando a morte com uma espécie de felicidade macabra.

A primeira vítima do monstro jazia aos seus pés, enquanto ela emitia um tipo de rugido estridente, no mesmo instante que as mulheres e o jovem correram gritando desesperados para um canto do salão. Isso chamou a atenção do monstro que se voltou para a grupo. Logdan olhou de rapidamente para porta que serviria como uma saída, seria necessária uma corrida rápida, mas algo não permitiu que Logdan se movesse, pois ele sabia que assim que saísse ocorreria uma chacina. Não foi bem a piedade com os membros do bando que lhe inspirou a enfrentar o monstro, afinal eles também eram monstros sob pele de homens. Logdan sabia que aquela criatura acumulou apenas fúria e ódio dentro seu cativeiro mágico e que ela não iria parar mesmo depois de massacrar todo o bando, os camponeses da região também sofreriam.

– Ei aberração! – Gritou Logdan ao mesmo tempo que jogou um dos fogaréus de ferro no monstro, espalhando brasas avermelhadas no ar.

O monstro conteve seu ímpeto de ir até grupo e virou-se para encarar o seu agressor, o mostro rugiu novamente abrindo sua boca segmentada a fim de intimidar sua nova presa.

– Nossa você é muito feio! – Afirmou Logdan enquanto se posicionava para enfrentar o monstro.

A luta entre os dois iniciou-se com um ataque de uma das garras do monstro que por pouco não atingiu Logdan, que desferiu dois golpes com a sua espada, porém, eles apenas resvalaram na carapaça grossa. O monstro saltou sobre Logdan, com intuito de imobilizá-lo, mas o guerreiro se esquivou com rolamento rápido à direita e assim que pôde o estocou com sua arma.

– Merda! – Logdan estava frustrado ao perceber que dificilmente causaria algum dano naquele monstro, porque a carapaça parecia feita de rocha pura. – Ei vocês, fujam daqui já! – Ordenou ele quando viu de canto de olhos os amantes encolhidos.

Todavia, essa pequena distração foi o suficiente para monstro acertá-lo com seu antebraço arremessando Logdan contra o trono do Hogg que se partiu com o impacto. Logdan caiu do tablado junto com os pedaços fragmentos da cadeira luxuosa.

– Não estou sendo pago para isso. – Logdan lamentou enquanto arfava sentindo dor no tórax, pois algumas costelas trincaram.

O monstro cruzou o tablado em busca de sua vítima abatida, com a intenção de aniquilá-la, porém, novamente o seu foco mudou quando pela porta do forte irrompeu uma pequena turba de homens violentos, armados até os dentes, com objetivo de defender tardiamente o seu líder. A embriagues que ainda pairava nos bandidos foi praticamente curada quando avistaram o monstro, pois o medo e pânico tomaram conta, todo ímpeto deles foi trocado por desespero fazendo com que homens da vanguarda se virassem para saída empurrando seus companheiros e aqueles que ainda não tinham entrado no salão os empurravam no sentido oposto, para dentro do forte.

A confusão dos bandidos facilitou a matança para o monstro, vários homens morreram dilacerados pelas garras monstruosas que cortavam a carne tão facilmente quanto cortavam o ar.

Logdan se esforçou para ficar de pé, usando como apoio a própria espada. Ele olhou para o monstro que seguia matando sem dificuldades e já havia alcançado o pátio do forte. O mercenário sabia o que teria que fazer, mesmo não querendo fazê-lo, teria que usar o verdadeiro poder de sua arma, a sua maldição.

O poder da espada estava selado, trancado de forma mística, sendo necessário que aquele que pactuou com ele o desejasse para então libertá-lo, mas isso corrompia o seu usuário o levando cada vez mais para insanidade e a perda da própria vontade, no fim o espadachim se tornaria apenas uma marionete da sua própria espada.

Logdan teria que assumir o risco de usar o poder pleno de sua espada, pois tinha que deter aquele monstro antes que o mesmo causasse mais mortes, em especial, das pessoas inocentes de fora do forte. Ele então desejou o poder e a espada respondeu emanando uma aura fantasmagórica com leve tom azulado, runas negras, escritos arcanos, surgiram no braço direito de Logdan a partir de sua mão e subiram até sua bochecha, logo em seguida seus olhos ficaram negros enquanto a íris adquiriu o mesmo tom da aura azulada da espada.

O mercenário, agora munido de todo poder de sua arma amaldiçoada, partiu para cima do monstro em uma velocidade sobre-humana, a criatura grotesca notou a sua chegada e o confronto entre eles iniciou-se novamente. O monstro golpeava initerruptamente, mas Logdan esquivava-se sem dificuldades, para ele o monstro se movia lentamente tornando a esquiva algo trivial, o que lhe motivava a sorrir de forma maliciosa.

Logdan agora era uma entidade poderosa, porque a mistura de uma guerreiro experiente com o poder místico que ampliava todas as capacidades físicas lhe proporcionava um poder absoluto naquele combate, tanto que com largo movimento de espada, que poderia ser evitado caso não fosse executado com tamanha velocidade e força, Logdan decepou o braço esquerdo da criatura, na altura dos ombros. O monstro soltou um tipo de grito alto, demonstrando a dor que sentia enquanto de seu ferimento escorria sangue gosmento de tom musgoso.

A luta se encerrou quando o monstro atacou desesperadamente com sua mão restante, o mercenário golpeou ao mesmo tempo, no entanto, com mais rapidez e potência. Esse golpe partiu em dois a cabeça do monstro, que caiu inerte no chão do pátio do forte.

– Fraco... – Sussurrou Logdan chutando o cadáver do monstro.

Ao libertar o poder da espada o usuário fica com uma sede quase insaciável por combates e por violência, por isso Logdan olhou ao redor procurando algum oponente, muitos dos membros do bando da Rapina Sangrenta estavam mortos e os que ainda respiravam tentavam se agarrar aos últimos instantes de vida que lhe restavam. De repente o mercenário levou as mãos à cabeça e se ajoelhou, uma vez que outra batalha se iniciará dentro do corpo de Logdan, entre a vontade dele e da vontade da arma.

Era cada vez mais difícil retomar o controle, mas Logdan se esforçou ao máximo buscando a luz no fim de um túnel, que era envolto em trevas. Ele recobrou o controle, contudo perdeu a consciência instantes depois. Logdan ficou lá, caído no pátio, junto com os mortos.


Logdan acordou quando os pequenos raios de sol atravessaram as frestas das janelas bloqueadas de forma tosca. Ele estava deitado de costas no tablado do salão, estava coberto com peles e as suas feridas foram limpas. Logdan recebeu cuidados de uma única pessoa, uma das amantes do Hogg, que o ajudou por gratidão, afinal, ele a salvou de dois monstros na noite anterior.

Todos os sobreviventes do bando debandaram apenas Logdan e a sua cuidadora ocupavam o forte e isso durou somente mais meio dia. Logo Logdan já estava na estrada novamente, rumando para o casarão do nobre daquela região, levava consigo as cabeças de Hogg e do monstro em sacos de estopa presos em sua sela. O prêmio seria bom, mas não o suficiente para largar essa vida, nunca era, pois no final das contas a sua profissão era ser mercenário e seu único ofício era matar.

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© 2018 por Diego Baptista.