• Diego F Baptista

THE LAST OF US - NOTAS AO VENTO (PARTE 2)

Atualizado: Ago 19


DISCLAIMER

O conto a seguir é baseado na obra de terceiros, os quais detêm todo e qualquer direito sobre ela. O objetivo é prestar uma homenagem aos criadores, aos seus fantásticos personagens e seus extraordinários mundos fictícios. Em outros termos, um exercício criativo que visa demonstrar o apreço que temos pela obra representada.

WYOMING │ 3º DIA DA CAÇADA

A neve estava dando uma trégua naquele momento da noite. Já era possível visualizar a rua em frente à casa de paredes amarelas, através de uma fresta entre as madeiras pregadas na janela.

– Será que o Ben ainda está perdido? – perguntou a soldada da WLF.

– Como é que eu vou saber? – respondeu o mais velho entre eles, de forma ríspida.

– O que eu quero saber de verdade é: o que vamos fazer com esse cara aqui? – o terceiro membro da WLF apontou para o jovem de traços asiáticos, que estava sentado amarrado em um cadeira no centro do que outrora era sala de estar daquela residência.

– Por mim, cortávamos a garganta dele e partimos de boa – sugeriu a mulher do trio de captores.

– Não se esqueça que temos ordens, cacete – a barba quase grisalha dava um certo aspecto de sabedoria, porém, o seu humor ácido e amargo junto com sua boca suja demonstravam que a idade não lhe trouxera sapiência ou prudência, comum aos mais velhos. Pelo contrário, o velho soldado da WLF era um exemplo estupidez e grosseria. – Também não gosto da ideia de bancar a babá e ficar com rabo congelando por aqui, nessa merda de buraco. Mas ordens são ordens, temos que manter esse vivo até termos mais respostas.

O trio da WLF fitou o jovem patrulheiro de Jackson. O rapaz estava inconsciente, mesmo desprovido de seu casaco e botas naquele frio. Não dormia, estava desmaiado devido a surra que levara de seus captores. Eles queriam informações a respeito do assentamento de Jackson, número de combatentes, produção de alimentos e principalmente a respeito do seu mentor e professor de patrulhas Joel. Mas o rapaz desfalecido se mostrou forte e determinado, nem mesmo revelando o seu nome, que era Jesse, para o infortúnio dos seus vigias.

O sangue pingava grosso do supercílio direito de Jesse, que respirava pesadamente preso pelas cordas. O soldado da WLF mais próximo a ele, o observava com curiosidade, avaliando quanto tempo mais Jesse aguentaria naquelas condições.

Foi então que se ouviu som de vidro se quebrando.

O trio da WLF ficou polvoroso.

– Que foi isso? – perguntou a soldada.

– Vocês dois vão dar uma olhada, eu fico aqui de guarda – orientou o soldado ao lado do desfalecido.

A dupla, composta pela mulher soldada e pelo soldado velho, avançou cautelosamente, com as armas em punho, em direção ao cômodo onde supostamente foi emitido aquele barulho. O remanescente do trio na antiga sala de estar, sacou sua arma, uma pistola 9 mm com meia dúzia de balas no pente, e ficou atento.

O silêncio tenso imperou por um longo instante.

Um calafrio subiu pela espinha do soldado da WLF que guardava Jesse, quando notou o velho soldado voltando para sala de estar. O homem dava passos estranhos, oscilantes, como se estivesse sendo impelido para frente.

E estava.

Com uma lâmina improvisada no pescoço do velho soldado, Joel o conduzia em direção a sala de estar antiga. O sujeito estava atordoado, pois levara um forte soco no nariz e depois foi agarrado e rendido pelas costas.

– Largue a arma! – ordenou Joel usando o velho como escudo humano. – Se não, esse aqui já era.

O guarda de Jesse pensou rapidamente e apontou sua arma para o seu vigiado.

– Estamos empatados, parceiro. Se você matar ele e mato esse japinha aqui!

– Seu tempo está acabando. – falou Joel.

– Do que está falando?

De repente, uma mão feminina, de dedos delgados, agarrou a boca e o queixo do soldado da WLF que ameaça Jesse. Puxando-o para trás de súbito. Isso lhe tirou o equilíbrio e o confundiu. Antes que ele pudesse disparar com a sua 9 mm, a lâmina afiada de um canivete riscou profundamente seu pescoço. Seu corpo desmoronou inerte no chão daquele local, formando uma poça rubra ao redor de sua cabeça.

– Filho da puta! – urrou o velho soldado, recuperando o foco e notando o que ocorrera diante de si.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, recebeu uma gravata apertada de Joel, que segurou o golpe, até que aquele soldado da WLF perdesse a consciência. Foi então que os dois patrulheiros de Jackson voltaram suas atenções para o jovem desmaiado, amarrado na cadeira no centro da sala de jantar decadente.

– Jesse! – chamou Ellie verificando se o rapaz ainda estava vivo.

A respiração fraca e o leve movimento das pálpebras dele indicaram que sim, mas isso mudaria logo, caso ele não recebesse primeiros socorros.

O jovem com traços asiáticos tinha sido espancado e torturado pelos os bárbaros da WLF, que como parte da tortura imposta, lhe arrancaram o seu casaco, luvas e botas o deixando exposto ao frio cruciante que fazia por aquelas bandas.




Quando Jesse finalmente despertou, estava deitado em um sofá, coberto com toda a sorte de tecidos – pedaços de cortinas, trapos velhos e lençóis puídos. Em um balde metálico, próximo a ele, ardia uma chama simplória, porém, eficiente para aquecer o cômodo. Viu, graças a luz bruxuleante, Joel e Ellie próximos a um de seus captores, o mais velho dentre eles. Agora era esse homem que estava amarrado na cadeira.

O gemido de dor de Jesse, que lutava se sentar sem sucesso, chamou a atenção de Ellie, que foi até ele para acudi-lo.

– Jesse, como você está?

– Vou sobreviver, eu acho. Vocês conseguiram me achar, obrigado.

– O que foi que aconteceu? – Ellie parecia bem aflita, mesmo após ter resgatado o seu amigo patrulheiro.

– Dina está bem, Ellie. Na medida do possível, é claro.

– Mas o que aconteceu afinal? – insistiu ela.

– Nosso grupo estava atrás dos retardatários da última horda de infectados. Fomos emboscados por esses caras da WLF. Jason e o Carl morreram na hora, junto com os nossos cavalos. A Dina e eu tentamos fugir, depois de disparar contra eles. Mas fomos apanhados.

Percebendo a conversa, Joel se aproximou da dupla e lamentou-se:

– Sinto muito por eles, Jesse. Eram homens bons.

– Eu sei, obrigado Joel.

O silêncio os abraçou por alguns momentos, ouviu-se apenas o som do assovio do vento frio, vindo do lado de fora.

– Por que eles deixaram vocês vivos? – era uma pergunta dura, fria e direta, com o pragmatismo enfático daqueles que sobreviviam em uma terra devastada. Ellie sentiu seu coração apertar quando questionou seu colega ferido, mas era preciso entender aquele cenário, as motivações daqueles indivíduos que se identificavam como membros da tal WLF, que, de uns tempos para cá, estavam vagando e travando combates ao redor do assentamento Jackson.

– No começo, eu achei que eles queriam apenas nossos mantimentos e armas, assim como todos os outros malucos que já nos atacaram no passado. Pensei que iam nos torturar, ou pior... – as palavras fugiram de sua boca e lágrimas marejaram seus olhos puxados, contudo, Jesse continuou. – Podiam ser canibais, cheguei até rogar por uma morte rápida para mim e para Dina.

O rapaz tapou a face com as mãos e se permitiu chorar. A agonia e o medo que sentira até aquele momento, transbordaram para fora dele. Joel ajudou Jesse a se sentar no sofá bolorento de forma prestativa e sendo gentil. Uma vez que sabia, mas do que ninguém, que cada perda de uma pessoa querida causava cicatrizes incuráveis no cerne da vida de qualquer um.

– Fique calmo, rapaz. Temos que nos concentrar em resgatar a Dina – orientou o velho sobrevivente. – Você disse que ela foi levada por esses caras da WLF, certo?

– Isso.

A inquietação tomou conta de Ellie, não conseguindo se conter mais. Ela perguntou de forma ríspida e autoritária:

– Por que esses filhos da puta levaram a Dina, hein?

Tanto Jesse quanto Joel, foram impactados com o tom de urgência na voz dela. O jovem patrulheiro respirou fundo e depois fitou Ellie nos olhos, dizendo:

– Foi por sua causa.

– Como?!

– Eles queriam você, Ellie – finalmente Jesse explicou.

Um misto de sensações correu pelo corpo de Ellie. Ao tentar contê-las, quase de forma inconsciente, a jovem sobrevivente sentiu sua bile subir na garganta. Foi para as costas do sofá e vomitou, em um jato único, o pouco que tinha mastigado naquele dia conturbado. Ela não podia acreditar no que ouvira, os malditos da WLF queriam pegá-la. Qual era motivo por trás disso? Será que eles sabiam da imunidade dela? E como sabiam disso? – essas perguntas eclodiram na mente de Ellie.

No entanto, não foi ela a tomar a iniciativa depois dessa revelação. Foi Joel que quis entender o motivo pelo qual os soldados da WLF levaram a Dina, ao invés da Ellie.

– Se eles queriam a Ellie, por que então levaram a Dina?

– Porque ela fingiu ser a Ellie.

O terror tomou conta da jovem sobrevivente. Obrigando-a a sentar no braço do sofá, pois suas pernas bambearam.

Jesse continuou a contar sobre o incidente.

– Como eu disse, eles tinham nos apanhado e nos arrastaram até aqui. Começaram a fazer perguntas, assim que nos amarraram. A Dina e eu não falamos nada e nem falaríamos, nunca, eu juro! – era clara a sinceridade de Jesse, que sorriu ao se lembrar de um fato curioso: – Dina chegou até cuspir na cara de pelo menos dois deles.

– Tenho que admitir, ela é durona – apontou Joel com um meio-sorriso.

– Sim, ela é – concordou Ellie com seriedade.

– Os desgraçados queriam saber se a Ellie vivia realmente em Jackson. – Jesse olhou para a jovem sentada ao seu lado, no braço do sofá velho. – Qual era a sua aparência e se você saia da cidade em grupos de patrulhas.

– Estavam coletando informações – concluiu Joel. Ambos os jovem menearam positivamente com suas cabeças, concordando com a opinião do velho sobrevivente.

– Não abrimos o bico, apesar da surra que levamos – Jesse insistia em deixar isso claro. – Mas...

– Mas, o quê? – interpelou Ellie.

– Colocaram o cano de uma arma, bem no meio da minha testa, querendo respostas. Foi aí, que a Dina cedeu.

Ellie e Joel trocaram olhares rapidamente, ambos imaginando o sofrimento que Jesse e Dina passaram nas mãos dos membros da WLF. A jovem decidiu perguntar:

– E o que foi que ela fez?

– Ela gritou e gritou, cada vez mais alto, dizendo que era você, Ellie – as palavras de Jesse saíram penosas. – Para provar, ela contou, para a líder deles, o que vocês passaram lá no hospital, em Salt Lake. Depois disso, eles decidiram separar uma parte do grupo para ficar aqui na retaguarda e o restante partiu durante o dia, junto com a Dina.

– Sabe para onde foram? – questionou a jovem sobrevivente.

– Não, infelizmente.

Joel aproveitou a deixa e começou a fuçar nas mochilas dos membros WLF que eles pegaram. Achou um mapa antigo, com anotações codificadas. Em seguida, fitou o homem amarrado à cadeira.

– Acredito que ele vai saber – apontou para o velho soldado da WLF.

– Eu vou fazer esse maldito contar tudo! – com ímpeto Ellie foi em direção ao desfalecido, abrindo seu canivete.

Mas foi detida por Joel, que segurou gentilmente seu braço e a orientou:

– Deixe isso comigo, garota. Cuide do Jesse, por favor.

Ela mordeu o lábio inferior em sinal de desaprovação. Mas, por fim, acatou o pedido de seu parceiro e mentor de outrora.

– Okay, mas me prometa que fará esse cretino falar.

– Prometo.

Ellie foi em direção do jovem ferido, a fim de prestar mais algum auxílio. Enquanto Joel, de costas para eles, se encaminhou em direção do velho soldado amarrado.

O restante daquela noite foi bem difícil para o membro da WLF. Depois de receber vários hematomas, ver seu sangue verter para o chão e sentir seus poucos dentes amolecerem ou caírem, contou tudo o que Joel queria saber.

A morte do velho soldado não foi piedosa, mas, ao menos, foi rápida.

Aquele mundo era implacável. Talvez os seres menos monstruosos ali presentes, fossem os sujeitos infectados pelo fungo, pois aparentavam ser desprovidos de vontade própria ou moral. Faziam o que faziam por mero instinto, diferentemente dos sobreviventes, que divididos em facções e tribos, justificavam suas brutalidades e carnificina em nome de suas virtudes, leis e crenças próprias. Sempre acreditando que eram os outros que estavam errados. Afinal de contas, um monstro é incapaz de admitir para si mesmo o quão monstruoso ele e seus atos são, quando tem uma justificativa viável ao seu alcance.

O trio de patrulheiros de Jackson, sabia que Dina estava em sério perigo, pois ficara à mercê de uma alcateia com objetivos e métodos escusos. Se eles desconfiassem que ela tinha mentido, sua morte seria horrível.

– Eu vou te salvar, Dina. Pode apostar! – Ellie afirmou para si, quando os três partiram na manhã seguinte, continuando a caçada.

No rastro dos lobos vindos do estado de Washington.



CONTINUA...



Revisão: Giuseppe Del Mastro

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© 2018 por Diego Baptista.