• Diego F Baptista

THE LAST OF US - NOTAS AO VENTO (PARTE 1)

Atualizado: Ago 19


DISCLAIMER

O conto a seguir é baseado na obra de terceiros, os quais detêm todo e qualquer direito sobre ela. O objetivo é prestar uma homenagem aos criadores, aos seus fantásticos personagens e seus extraordinários mundos fictícios. Em outros termos, um exercício criativo que visa demonstrar o apreço que temos pela obra representada.

WYOMING │ 2º DIA DA CAÇADA

A respiração saia entrecortada, com pequenos espasmos de dor. O hálito produzia vapor ao sair pelos lábios naquele clima frio do inverno. Sentado, com as costas apoiadas na parede, Joel avaliou o ferimento na altura de suas costelas. Por sorte não fora profundo, mas o corte ardia como brasas toda a vez que ele se movia. O ex-contrabandista a cada dia se sentia mais velho e a idade já lhe cobrava o seu preço. Aquele cortezinho de nada não o impediria de prosseguir imediatamente no passado. Todavia, naquele momento, precisava de uma pausa para se recuperar.

Quase não ouviu os passos leves que se aproximavam.

– Como você está, Joel? – perguntou Ellie com o semblante neutro.

– Me dá minuto – respondeu ele com um sorriso amarelo, sem graça por estar naquela situação.

– Podemos passar a noite aqui, a casa está limpa. Mas amanhã se você, vovô, conseguir andar, acredito que seja melhor que volte para Jackson.

Apesar da brincadeira de chamá-lo de vô, Ellie estava bem séria quanto ao desejo de que Joel retornasse para segurança do assentamento de Jackson. O ex-contrabandista a fitou por uns instantes, em silêncio. Quanta coisa mudara em cinco anos, desde o hospital na cidade de Salt Lake, Utah. A garotinha animada e sonhadora tinha se tornado uma mulher forte, determinada e tão sisuda quanto ele próprio. E era fácil notar no olhar dela o ressentimento que a corroía.

Se Joel pudesse voltar atrás, reviver o passado, ele não mudaria nada em relação ao que ocorrera em Salt Lake. Por isso sabia que, talvez, nunca recebesse o perdão dela.

– Não vou embora, garota. Estou com você até o fim.

– Eu não pedi para você vir junto, Joel. – Desabafou a jovem patrulheira de Jackson, irritada. – Por que você continua a agir assim?

– Assim como?

As palavras quase saíram ríspidas e duras como pedras, mas Ellie as segurou. Mordeu os lábios e preferiu se afastar indo em direção a cozinha da casa abandonada.

– Ellie... – Joel tentou impedi-la, mas foi em vão.

Novamente sozinho, na carcomida sala de estar, Joel improvisou um curativo. O álcool que encharcava o pano que usou para limpar a ferida e a sutura – que ele fizera em si mesmo –, quase o fizeram gritar de dor. Conduto, o velho sobrevivente já se habituara a esse tipo de primeiros socorros.

Se pôs de pé, e olhou através da janela.

A noite chegaria em poucas horas e, pela quantidade de neve que caía naquele momento, ele pôde prever que não teriam uma tempestade naquele dia. No entanto, o frio seria intenso.

Tomou uma decisão e foi atrás de Ellie na casa.

A encontrou vasculhando o armário do banheiro do quarto suíte, no andar de cima. Ela possuía uma vasta experiência em procurar itens úteis nas ruínas da antiga sociedade. Os objetos supérfluos e comuns de outrora, naqueles dias, anos após o surto da mutação do fungo Cordyceps; se tornaram verdadeiros tesouros para os sobreviventes.

Apoiando o ombro no batente da porta do banheiro, Joel puxou papo com a sua querida amiga.

– Acho que devemos ir, vamos segui-los agora a noite. Porque acredito que eles montarão acampamento, a fim de evitarem o frio.

A jovem ouviu agachada, ainda procurando algo no armário inferior da pia. Ela meneou com a cabeça, positivamente.

– Temos que ter cuidado – expôs ele. – O Tommy e eu vimos uma horda vagando por essa região há alguns dias.

– Por que os infectados estão andando juntos?

– Não faço a menor ideia. Talvez seja algum tipo de migração, tipo as dos pássaros. Provavelmente, em busca de alimento ou outros para contaminar.

– Era só o que faltava, neste mundo de merda! – Irritada, não só com a movimentação da horda dos infectados, Ellie fechou bruscamente a portinha do armário. – Acho melhor a gente ir, agora.

Joel se apertou contra porta, para deixá-la passar. Ele quis segurá-la, dar-lhe um abraço paternal, expressar suas preocupações e carinho. Contudo, apenas a deixou ir em frente.

Olhou para relógio em seu braço. Ainda estava quebrado, com os ponteiros paralisados, eternamente marcando o horário e a data que Joel perdera um pedaço de sua alma.

– Até o fim, garota. – Murmurou, jurando para si mesmo que não perderia outro pedaço. Não conseguiria suportar viver em um mundo sem a Ellie. Repetiu mais uma vez antes de sair:

– Até o fim.



Pouco tempo depois, após adentrarem uma antiga área comercial de cidade abandonada, Joel e Ellie encontraram rastros da passagem de suas caças. Mesmo nevando e com o céu escuro da noite, conseguiram identificar que o grupo que perseguiam tinha entrado em um grande galpão, que em outros tempos fora uma oficina de automóveis.

Corpos, vísceras e sangue de infectados, estavam espalhados nos arredores da entrada do tal prédio.

Ellie fez um sinal com a mão para Joel, indicando que entraria por uma das portas frontais, a que estava entreaberta. Ele indicou que daria a volta, em busca de outra entrada com intuito de não serem pegos desprevenidos. Mas antes de ir, fez outro sinal para a jovem, pedindo para que ela tomasse cuidado. Como resposta, recebeu apenas um leve revirar de olhos e um suspiro profundo.

Ela ainda continuava irritada com Joel.

Esvaziou a sua mente, conversaria com ele em outro momento. Naquele momento, precisava se focar na caçada, não podia se dar ao luxo de permitir que aquele grupo de filhos da puta ganhassem mais terreno.

Ao passar pela porta, a pequena lanterna presa em uma das alças de sua mochila, iluminou o balcão, móveis e o restante de tralha abandonados. Poeira e decadência já eram comuns aos olhos de Ellie. A jovem nasceu e cresceu depois do início da pandemia que assolou aquelas terras. Só conhecia os restos da antiga sociedade. Quando criança, sonhara diversas vezes com o apogeu da civilização, com as pessoas vivendo suas vidas sem medo de esporos, facínoras ou estaladores.

De repente, algo chamou a atenção dela.

Um estalo.

Na verdade, estalos repetitivos – o som característico que anunciava a presença deles. O barulho estava vindo do salão ao lado.

Ellie entrou sorrateiramente no local. Pisando muito leve, usando a furtividade a seu favor. Escondida detrás de um carrinho de ferramentas, ela pôde ver a criatura. Algo que um dia já fora uma mulher, agora era um ser vil, disforme e repugnante.

A estaladora mantinha pedaços de trapos presos ao seu corpo, resquícios de suas antigas roupas antes de sua contaminação. Pústulas fúngicas com diversos tamanhos e formatos se espalhavam por sua pele, de cima a abaixo. Mas o que causava mais espanto e repulsa ao avistar esse tipo de monstro, era seu crânio. Da parte superior frontal brotavam alguns píleos – semelhante aos chapéus dos cogumelos – de forma caótica, como uma flor nefasta, sem beleza alguma. Não havia mais olhos, nariz ou orelhas, apenas alguns fios de cabelos na parte traseira da cabeça. A boca ainda estava lá, os lábios rachados e os dentes podres e sujos de sangue, representando a maior ameaça daquele ser nascido do horror.

A jovem sabia que mesmo sendo imune ao Cordyceps, a mordida daquela estaladora poderia matá-la, pois esses seres costumavam ser brutais e ávidos a dilacerar pescoços ou qualquer outra parte de um ser humano que lhes fossem oferecidas. Ellie optou por evitar a tal criatura, escolhendo uma rota que descia a volta e longe dela, se movendo em silêncio.

Quando alcançou um carro abandonado, que não teve a sorte de ter sua manutenção finalizada antes da pandemia, Ellie viu um corpo jogado no chão, em um canto da oficina.

Era um homem, com a lateral de sua garganta dilacerada. Seus olhos, vítreos, encaravam o teto enquanto sua boca estava paralisada aberta, denunciando como fora agoniante seus últimos momentos em vida. Uma poça de sangue coagulava em sua lateral direita. Ellie foi até o cadáver. Tocou com a pontas dos dedos o líquido rubro que jorrou dele. Ainda estava quente.

Aquilo era sinal que o homem morrera a pouco tempo. Ela vasculhou os bolsos do casaco dele. Encontrou três balas de revólver, um saquinho com carne seca e um bilhete. No pedacinho de papel estava escrito:

“Ben, não se esqueça que a Sophie e eu lhe amamos muito. Não gosto da ideia de você ir tão longe por causa de um boato. Mas sei que tenho que aceitar, afinal, esse é o seu trabalho aqui e ele é muito importante. Volte logo, por favor. Beijos. May”

Ellie não se lamentou pela perda da tal de May e de sua filha, tendo em vista que viu o brasão costurado na jaqueta dele, com a sigla: WLF. O morto fazia parte da Washington Liberation Front (Frente de Libertação de Washington), ou seja, o mesmo grupo que atacou as patrulhas, das quais os sobreviventes apontaram como responsáveis pelos os ataques recentes nas redondezas de Jackson. Que se foda, esses malditos da WLF – pensou Ellie, se afastando do corpo.

Um chiado de walkie-talkie surgiu do nada.

O som vinha do cadáver e aquilo chamou complemente a atenção da estaladora, que correu apressadamente em direção a ele. Ellie praguejou seu azar, também correndo em direção oposta ao monstro feminino, que começou a persegui-la.

Disparar a esmo no meio de uma oficina, contando apenas com a parca luz de uma lanterna, se provou um erro. Logo após saltar um macaco hidráulico enferrujado, Ellie tropeçou em uma lata de óleo que estava camuflada no breu. Ela deu passos cambaleantes, tentando ficar de pé, caiu estatelada ao trombar contra uma prateleira metálica. Virou desesperada e ficou com as costas no chão, tentando sacar o seu afiado canivete do bolso da seu jeans.

A estaladora saltou sobre ela, com ímpeto incontrolável. Seus dedos pustulosos agarraram os ombros de Ellie, ao mesmo tempo que a boca descia voraz ao encontro do pescoço da sua nova vítima. Usando o cotovelo esquerdo no peito do monstro, a fim de manter os dentes e a boca salivante longe de si. Ellie lutava por sua vida. Gemendo e urrando devido ao esforço para não ter o mesmo destino do homem da WLF, morto no salão.

Um golpe de uma lâmina larga, vindo do escuro, atingiu a lateral da cabeça da criatura horripilante.

O monstro soltou Ellie, rolando desajeitadamente para lado. Joel partiu para cima dela. Golpeando sem descanso a estaladora, com uma machete. Ele parou quando teve certeza de que matou aquele ser maligno e nojento.

Olhou para lado e viu Ellie ofegante.

– Tudo bem, garota?

– Tudo – respondeu ela, ainda ofegante no chão.

A jovem patrulheira odiava cada vez mais ficar em situações como aquela, enfrentando monstros horrendos, ficando entre a vida e a morte. Apesar de tal situação fazer parte de sua rotina. Levantou-se do chão manchado com a ajuda do Joel. Chutou a estaladora morta, para aliviar sua frustração. Daí se lembrou do rádio do cadáver. Foi até ele, apressada.

– O que foi? – Perguntou Joel.

– Ele tem um walkie-talkie, em algum lugar – ela abriu o zíper da jaqueta do falecido e procurou. Achou o pequeno aparelho em um bolso interno.

– Funciona?

– Sim. Foi por causa dessa coisa que a aberração veio atrás de mim.

– Aperte duas vezes esse botão lateral – instruiu Joel.

– Assim? – Ellie seguiu as orientações.

– Isso.

– E agora?

– A gente espera.

Instantes depois, uma voz chiada saiu do walkie-talkie:

– Ben, onde você está?

Joel estendeu a mão para Ellie, solicitando o pequeno aparelho. Ela lhe entregou.

– Estou perto de uma oficina – ele tentou manter um tom neutro de voz, torcendo para que a distorção sonora da onda de rádio camuflasse sua identidade.

– Certo. Volte para acampamento, precisamos revezar a ronda – falou a voz do outro lado da linha, aparentemente sem notar que não falava com seu colega de bando.

– Infelizmente, a neve me pregou uma peça. Estou um pouco desorientado, pode me ajudar? – Pediu Joel com o mesmo timbre de voz da fala anterior.

Silêncio no rádio.

Ellie e Joel se entreolharam, na expectativa.

A voz voltou a sair do walkie-talkie.

– Porra, Ben. Tu é foda, mesmo – depois da bronca, acrescentou: – Faz o seguinte, vá até a avenida principal, depois rume para Noroeste. Estamos em uma casa de esquina, com as paredes amarelas. Copiado?

– Copiado – respondeu Joel.

Devolveu o walkie-talkie para Ellie, que perguntou:

– Como sabia desse lance com o botão?

– Isso é bem comum para chamar a atenção de quem usa um igual a esse. Eu sei, porque usava um igualzinho no meu antigo trabalho, há anos atrás. Ou melhor, décadas atrás – explicou ele contemplativamente. – Isso agora parece que foi em outra vida.

– Okay, então – ela quis encerrar a conversa o quanto antes. – Vamos indo?

– Sim, vamos.

Novamente, Ellie tomou a dianteira. Saindo da oficina e ganhando a rua. Ela pisava firme na neve fofa. Joel a seguia, volta e meia, colocando a mão sobre o ferimento em suas costelas. Os pontos tinham se aberto. O sangue vertia devagar, manchando a sua camisa e jaqueta pelo lado de dentro. Toda a vez que suas pernas almejavam fraquejar pelo esforço daquela marcha, ele repetia para si mesmo:

– Até o fim.


CONTINUA...


Revisão: Giuseppe Del Mastro

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© 2018 por Diego Baptista.